
Armazém
3 Barras
DISTRITO:
Itaiacoca
Fundado em 1937 por Ervino Duvoisin, o Vino, o armazém possuía uma variedade de produtos para atendimento aos moradores de Itaiacoca, região impulsionada pela extração de cal e atividades agrícolas. Em 1952 foi inaugurada a edificação atual e, em 1964, o comércio começou a ser tocado pelo seu filho Osvaldo Duvoisin, conhecido como Nileu.

Aline Nigelski
@alinenigelski
"O prédio foi construído por Hugo Duvoisin, meu bisavô. Sei que ele veio morar em Itaiacoca por volta de 1913, imagino que a construção seja dessa época"
Ederson Morais de Jesus
41 anos - motorista autônomo
"Fui nascido e criado nesse lugar, passei toda a minha infância ali. Nós morávamos a 1 km de onde o ônibus escolar passava, e todos os dias nós íamos a pé até o ponto. Sempre alguma coisa nos acompanhava pelo mato, fazendo barulho, e eu morria de medo."
Fernanda Ap. Silva
36 anos - zeladora
"Quando era criança eu ia com meus pais nas festas de Itaiacoca.
Lembro que uma vez a gente foi de kombi - estávamos em 10 pessoas, e passamos no Armazém para comprar coisas para levar na famosa Festa do Divino. Lembrança muito boa da família reunida"
Neiri José dos Santos
45 anos - operador industrial
"Tive conhecimento desse lugar no ano de 1983. Por ser o ponto principal da comunidade, muitas amizades eram feitas ali. Uma das lembranças que tenho: ali havia um comerciante chamado Seu João, uma pessoa muito querida. Lembro que esperávamos o ônibus para ir à escola e todos os dias o seu João nos dava doces. Isso fazia com que não perdêssemos dias de aula; fazíamos questão de estar ali porque sabíamos que o doce era garantido. Consequentemente, não faltávamos na escola. Lugar bom de se viver"

Orlando Clarindo
75 anos - aposentado
"O Armazém Três Barras era conhecido por ser um dos maiores da região. Os funcionários da Mineração Menezes e da Itaia Mineração faziam suas compras lá."


Luciano não fala daquele lugar como quem descreve um ponto no mapa, um espaço como outro. Ele fala como quem volta para casa. O Armazém 3 Barras já não existe mais como antes, o tempo passou por ele, desgastou paredes, enfraqueceu a estrutura, mas o lugar continua ali, sustentado pelas histórias que não se perderam. É onde o pai dele nasceu, onde cresceu, onde aprendeu a viver. E é por isso que, quando Luciano começa a falar, ele não fala só do espaço, ele fala de seu pai, do avô, da família inteira.
Ele cresceu ouvindo essas histórias. O pai contava com detalhes, mostrava, levava até lá. E cada visita não era somente uma visita, era quase uma reapresentação daquele mundo. Luciano lembra de caminhar pelo terreno e ouvir: “aqui era assim”, “aqui acontecia isso”, “foi aqui que eu aprendi”. E aquilo ia ficando. Hoje, quando ele volta sozinho, ainda consegue reconstruir tudo pela fala do pai.
O armazém ficava ao lado de sua casa. Era ali que o avô, Ervindo Duvoisin, trabalhava. Um homem de origem alemã, rígido, trabalhador, daqueles que organizavam tudo com precisão. O pai de Luciano cresceu nesse ambiente, ajudando desde cedo, sendo caixeiro, cuidando do que precisava ser cuidado. Não era só trabalho, era formação. Era ali que ele aprendeu o que depois carregou para a vida inteira.
Perto dali tinha a escola. Pequena, simples, hoje já bastante deteriorada. Luciano voltou recentemente e encontrou o prédio quase caindo. Mesmo assim, é ali que o pai dele estudou, que aprendeu a ler, a escrever, a se organizar. Ele fala desse espaço com uma espécie de respeito silencioso, como se ainda reconhecesse ali alguma coisa viva.
Mas as histórias não ficam só no trabalho ou na escola. Elas passam pela casa, pela convivência, pelo tempo compartilhado. Luciano fala do fogão a lenha, da família reunida em volta, das conversas que atravessavam a noite. O avô contando histórias, lembrando das coisas que tinha, das conquistas que guardava com orgulho. No galpão, ficavam os carros, um Chevrolet 1951, um Chambord, um Landau. Não eram só veículos. Eram parte daquilo que ele tinha construído, guardados com cuidado, como quem preserva algo importante.
E, no meio de tudo isso, aparece uma história que volta sempre. O pai mostrando o quarto onde dormia. Apontando a janela e dizendo, quase com um sorriso, que era dali que ele saía escondido para ir namorar. Pulava a janela para não acordar o avô e seguia noite adentro. Às vezes a pé, às vezes a cavalo, percorrendo quilômetros até chegar onde a mãe de Luciano morava. Voltava depois, no silêncio, como se nada tivesse acontecido. Luciano conta isso como quem já ouviu muitas vezes, mas nunca se cansou de ouvir.
Hoje, o espaço está diferente. Parte dele ainda pertence à família, dividido entre irmãos, tios, cada um cuidando como pode. A estrutura sente o tempo, há partes que já não permitem nem entrar com segurança. Mesmo assim, existe um esforço de manter aquilo de pé, de não deixar desaparecer. Luciano fala da vontade de reconstruir, de recuperar, de reorganizar o espaço para que ele continue existindo.
Ele mesmo diz que, quando não está bem, volta lá. Fica um tempo, anda pelo terreno, observa o que ainda resta. E, nesse movimento, sente como se o pai ainda estivesse presente. Não como lembrança distante, mas como presença mesmo, como alguém que ainda orienta, que ainda chama, que ainda diz para seguir em frente. Para ele, aquele lugar não ficou no passado. Ele continua acontecendo toda vez que alguém lembra, conta, volta, mostra. É ali que a história começa. E, de algum jeito, é ali que ela continua.
Luciano Maurício e suas lembranças do Armazém 3 Barras
59 anos - funcionário público estadual
por Tamires Limurci



CRÔNICA
O armazém de todas as coisas e memórias
por Érica Busnardo
No caminho entre Passo do Pupo e Biscaia, em Itaiacoca, há um lugar onde o tempo parece ter desacelerado e feito morada. É ali, naquele ponto discreto do mapa, onde, hoje, corre o asfalto e, ontem, só passava poeira, que repousa o antigo Armazém Três Barras, com seu relicário de histórias. As entradas já não se abrem mais para os barulhos das manhãs. Mas, hoje, abriram-se para deixar a lembrança passar.
E quem nos abre essa porta de volta ao passado é Osvaldo Anikeu Duvoisin ou, como todos o conhecem, seu Nileu, de 86 anos, último dono do armazém e guardião de uma história que começa antes mesmo do seu nascimento. Nileu carrega no rosto as marcas do tempo, nas mãos, os sinais da lida e, na fala tranquila, os detalhes de uma Itaiacoca presente na memória de muitos moradores. A história do Armazém Três Barras é dele. E de uma gente inteira.
O armazém era parada obrigatória. Abastecia quem passava, acolhia quem precisava. Foi o pai de Nileu, Ervino Duvoisin, o Vino, quem começou tudo, lá em 1937. Ergueu, com esforço e visão, o primeiro armazém da localidade. Passado um tempo, achou por bem ter uma nova sede. Então, no final da década de 1940, Vino pegou dinheiro emprestado do próprio pai, contratou os três pedreiros que haviam sido chamados para erguer um hospital público (cuja obra não vingou) e botou a mão na massa. Em 1952, o novo armazém foi inaugurado. Uma construção sólida, tão firme como promessa de antigamente, que continua de pé até hoje.
No mesmo pedaço de terra, tinha de tudo: o armazém, a escola onde Nileu aprendeu as primeiras letras, a casa da família, que servia de pouso para os professores que vinham de longe. Ponta Grossa parecia outro mundo, e a estrada de chão mais parecia promessa do que caminho.
Por ali, dinheiro era algo relativamente raro. Mas o crédito era abundante. Feijão, cal, milho, galinhas e porcos rodavam em escambo, numa tratativa em que a confiança valia mais que contrato. Além de comércio, o espaço era também uma espécie de centro da vila, principalmente na época em que Vino comprou o primeiro aparelho de rádio da região. A tal “caixa de madeira que falava” virou um espetáculo à parte. O povo se reunia para ouvir a voz do mundo chegando a Itaiacoca. Nos fins de semana, o armazém se transformava em ponto de notícias, com muita conversa sobre os acontecimentos da semana.
Enquanto Vino dava conta do armazém, o menino Nileu cuidava das plantações, galinhas e porcos. Preferia o cheiro da terra ao barulho das moedas no velho balcão de madeira. Mais velho, passou a trabalhar também na queima da cal, principal atividade econômica da época na região. Foi só em 1964 que ele assumiu o comando, mesmo ano em que se casou com Vera, a moça linda que conhecera num baile. Com o dote do sogro, comprou o armazém do pai. E assim o Três Barras seguiu, entre vendas e causos, cumprindo sua função e colecionando histórias.
O armazém, agora do Nileu, era espelho da vida local. Ali se vendia tudo. Tudo mesmo! De mantimentos e arreios para carroça a soro caseiro, remédios e seringas para injeção. Salitre, enxofre e carvão eram itens requisitadíssimos para a fabricação da pólvora usada nas explosões de calcário. Não faltava nem espoleta para acionar dinamites. Aliás, até mesmo as dinamites eram vendidas ali. Nileu se lembra até hoje de pedidos específicos, como ouviu certa vez: “Me dá meia dinamite!”. Assim mesmo. Meia dinamite.
Em tempos de baile, as mercadorias procuradas mudavam. As moças iam atrás de óleo de ovo para o cabelo, pó de arroz e rouge. Os rapazes buscavam chapéu de feltro, cuidadosamente experimentado antes da compra. E o item indispensável para ambos era o cravo, o perfume da noite, mascado antes e durante a festa.
O armazém também abastecia despedidas. Ali se compravam tábuas para construção de caixões, tecidos, véus e até papel crepom para fazer flores e enfeites que seriam colocados ao lado do morto. “Só faltava chorar nos velórios”, conta Nileu, exemplificando o quão complementar era o serviço.
E se era ele quem ajudava no fim da vida, era ele também quem dava suporte nos começos. Nileu virou espécie de anjo da guarda das gestantes da região. Cabia a ele o transporte das grávidas para parirem com segurança em Ponta Grossa. Esse frete da vida lhe rendeu uma penca de afilhados na região, que até hoje o cumprimentam quando o encontram.
Gente demais passava pelo armazém. Tantos Zés, Joões, Marias, que foi preciso renominá-los para que Vera e Nileu se lembrassem de cada um. Assim, o José Francisco virou o Zé Chico; a Maria, esposa do João, virou a Maria João; o José, descendente de alemães, tornou-se o Zé Branco. Cada apelido, uma história.
O comércio fervilhava, ainda que, aos olhos externos, parecesse isolado. Nileu e Vera constantemente ouviam de vendedores de fora frases como: “Pra quem vocês vendem?”, “Aqui é mato na frente, mato atrás, mato ao lado... tudo é mato!”. O que esses comerciantes não viam era o fluxo de vida que passava por ali. Durante o dia, vendia-se o necessário, como mantimentos, temperos, remédios. À noite, virava ponto de encontro para uma boa cachaça e conversas acaloradas que, por vezes, terminavam em brigas. Quando isso acontecia, Nileu encerrava tudo à sua maneira: fechava o armazém e mandava, sem muita delicadeza, todo mundo embora.
Assim como as mercadorias, o que não faltavam ali eram causos, muitos contados pelos clientes. Como o dos dois irmãos: um deles delegado e o outro, preso por ter derramado leite na esposa. O “meliante” foi levado pelo próprio irmão de Biscaia, onde o fato ocorreu, até o Cerradinho, numa viagem que durava cerca de uma hora. E reza a lenda que foi jogado no porão mal-assombrado da cadeia, dizia-se na época.
Outros casos, presenciados pelo casal, também marcaram. Como o do menino que se recusava a aceitar o doce que o pai queria lhe comprar. O que o pirralho de aproximadamente cinco anos queria mesmo era cigarro. Imperador. E era atendido, sob os olhares resignados de Nileu e Vera, que, incrédulos, presenciavam essa situação todo mês.
Entre esses causos curiosos e absurdos, também há aqueles que deixaram um tom um pouco amargo na lembrança. Um, em especial, ainda perdura para Nileu: o de um senhor que levou o sobrinho ao armazém. O menino pediu doce. O tio quis cachaça. E foi o que levou. Tempos depois, passou pelo Três Barras a notícia de um homem que entrou num tanque de água e nunca mais voltou. O senhor que preferiu cachaça ao doce havia morrido.
Um peso que Nileu carrega no presente é o arrependimento de não ter dado doces para crianças cujos pais trabalhavam na exploração da cal. O vale que esses trabalhadores recebiam mal dava para sustentar a casa. Muitas vezes, para garantir o fubá, a quirera, o feijão, a farinha de milho, entre outros alimentos, eles deixavam na mercearia, como pagamento, sabão e fumo. Nileu acredita que um doce, ainda que simples, poderia ter rendido um breve sorriso àquelas crianças. Mas o armazém, afogado na rotina dura da vida, não deixou espaço para esse gesto.
Portas fechadas e histórias abertas
A vida, assim como o tempo, muda de forma. Em 1974, com os filhos crescendo e sem uma boa escola por perto, Nileu e Vera deixaram Itaiacoca. O Armazém Três Barras ficou sob o cuidado de um funcionário. Toda a mercadoria estocada foi devidamente registrada, organizada por nomes e quantidades, em um caderno que Nileu guarda até hoje. Mas o tempo fez o que sabe fazer de melhor: passou. O movimento sumiu, os produtos encalharam, o armazém silenciou. Fecharam-se as portas, mas não a história, que recomeçou no novo comércio que abriram em Ponta Grossa, em Uvaranas. E para lá também foram os antigos clientes de Itaiacoca.
Daquele tempo em Três Barras, além das lembranças, Nileu guarda os cadernos de anotações do armazém. Verdadeiros livros-caixa. Lá estão nomes, datas, dívidas. Apesar do tempo, ainda é possível ler com perfeição informações como “Carlos Moro”, “Domingos Souza”, “Eurico de Paula”, “19.5.69”, “21.7.71”, “620”, “4.70”. Tem até uma espécie de nota empenhada: “Jairo dois machados empenhado 1.600”, registrada em 1969. Jairo, figura conhecida, deixava esses machados como garantia de pagamento. Depois pagava a conta, pegava-os de volta e, no mês seguinte, os penhorava novamente. Era o vai e vem da confiança.
Outros nomes não ficaram nas páginas dos cadernos, mas na lembrança. Como se esquecer do compadre Generoso? De generoso, só o nome. Por ironia — ou sarcasmo do destino —, Generoso era o maior devedor de todos e não costumava pagar sua conta.
Hoje, o Armazém Três Barras é uma casa silenciosa, de portas cerradas, mas com o nome ainda firme na fachada. Não há mais mercadorias, nem prateleiras ou balcões. Apenas a estrutura sólida, à beira do asfalto, que abriga ecos de um tempo que insiste em permanecer. Por ali ainda circulam o passado, a saudade e uma história que, vez ou outra, pede licença para se sentar à mesa, num fim de tarde, com um gole de café e um pedaço de bolo de fubá. O armazém está calado, mas sua memória segue viva, como um documento afetivo que teima em resistir ao tempo.





Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski
Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo
Narração do podcast: João Agner
Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,
João Fogaça e Vinicius Orza


