top of page
  • Facebook
  • Instagram
background verde.jpg

Praça
Hulda Roedel

BAIRRO:
Ronda

A praça tem origem na década de 1950 e está localizada no coração do bairro da Ronda, em frente à Paróquia Santa Rita de Cássia, criada em 1957. O nome oficial veio em 1977, em homenagem à dona de casa Hulda Roedel, conhecida por sua generosidade. Desde 2010 é palco para a tradicional Festa das Nações, reunindo cerca de 50 mil pessoas por ano.

Praça Hulda Roedel.jpg

CRÔNICA

O mesmo lugar, outro tempo

por Érica Busnardo

Há lugares que não mudam de endereço, mas mudam de tempo. Geni Soares percebe isso a cada dia que atravessa a praça Hulda Roedel, na Ronda. Há décadas, todos os dias ela faz o mesmo caminho.


Começou menina, de mãos dadas com a mãe, a caminho da missa.  No meio do percurso, havia sempre um desvio que era inevitável: os balanços. A praça, naquele tempo, não era caminho. Era pausa. Era riso solto, corpo leve, tempo sem pressa. Era assim que a vida começava a se misturar com o lugar. 


O trajeto permaneceu com o passar dos anos, mas quem caminhava já era outra. A menina cresceu, ficou, construiu família, criou filhos, e a praça foi ficando também. Deixou de ser só um espaço de infância para se tornar extensão da rotina, quase um prolongamento da casa e da fé. Entre sua casa e a paróquia Santa Rita de Cássia, a quem tantos recorrem quando o resto falha, a praça é território silencioso, onde o cotidiano se organiza sem que ninguém perceba.


Ela viu o tempo acontecer ali sem pedir licença. Viu o filho atravessar o mesmo espaço que um dia foi seu. Viu-o sair da escola e correr para a quadra, jogar bola até se esquecer da hora, obrigando o pai a ir busca-lo. Viu a praça cheia de crianças. Tão cheia que ganhou um apelido: a pracinha das crianças.


Hoje, onde o barulho se espalhava, o silêncio fica mais evidente. Não é uma quietude tranquila. É ausência. O tipo de ausência que muda o jeito de passar. A estrutura mudou, o tempo passou, e o que antes era permanência virou, muitas vezes, passagem distraída. A falta das crianças não precisa ser explicada. Ela é sentida. Pais já não deixam filhos sozinhos ali. A praça, que acolhia, agora exige cautela. 


Mas há um momento em que tudo retorna. Em maio, com a Festa das Nações, a praça acorda diferente. Gente chegando de todo lado, barracas nascendo onde antes havia só passagem, vozes que se cruzam, cheiros tomando o ar. Há pressa e demora ao mesmo tempo. Geni está lá, em frente à barraca chinesa, desde o começo. Chega cedo, fica até o fim, como quem sustenta o dia para que ele não desabe.


Teve um ano em que a água da chuva tomou conta de tudo. A quadra virou espelho, as barracas quase se perderam. E, ainda assim, ninguém arredou o pé. De rodo na mão, a água sendo empurrada de volta para fora, como se fosse possível negociar com a chuva. A festa continuou porque havia gente decidida a não deixar aquele momento acabar.


Quando o ano se encaminha para o fim, há outra transformação. A praça se deixa acender. Luzes começam a surgir entre as árvores, contornos se desenham onde antes havia sombra, e o espaço se veste de um outro tempo. Desde 2024, a decoração de Natal fez dali um convite, não apenas para passar, mas para permanecer. À noite, quando as luzes se revelavam por inteiro, o movimento mudou de ritmo, pessoas passeavam sem pressa, atravessavam a praça devagar, prolongaram o caminho. A praça, então, recuperou um pouco do que já foi, um lugar de encontro, de encantamento, de pausa.


É assim que alguns lugares se mantêm. Não pelo que têm, mas por quem fica. No resto do ano, a praça segue no seu compasso mais discreto. É caminho para o ponto de ônibus, ponto de encontro antes da missa, lugar de atravessar. Leva e traz gente, encosta histórias, atravessa dias.


E Geni continua passando. Todos os dias. Há algo silenciosamente obstinado nisso. Ao repetir o trajeto, ela mantém vivo não só um hábito, mas uma forma de pertencimento. Como se cada travessia dissesse: ainda estou aqui.


A praça, mesmo vazia na maior parte do tempo, nunca está só. Cada sombra, cada banco, cada árvore carrega os ecos do que já passou e do que ainda acontece. Ela não espera nem repousa. Simplesmente existe, dobrando o tempo sobre si mesma, resistindo, mesmo quando tudo em volta muda.

Praça Hulda Roedel.jpg

Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski

Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo

Narração do podcast: João Agner

Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,

João Fogaça e Vinicius Orza

bottom of page