
Praça
Hulda Roedel
BAIRRO:
Ronda
A praça tem origem na década de 1950 e está localizada no coração do bairro da Ronda, em frente à Paróquia Santa Rita de Cássia, criada em 1957. O nome oficial veio em 1977, em homenagem à dona de casa Hulda Roedel, conhecida por sua generosidade. Desde 2010 é palco para a tradicional Festa das Nações, reunindo cerca de 50 mil pessoas por ano.

Rafael dos Santos
21 anos - geógrafo
"A Praça Hulda Roedel é um lugar onde me traz somente lembranças boas. É onde pratiquei esportes pela primeira vez com meu pai, o basquete. Passávamos horas da tarde jogando e marcando muitas cestas. Outra recordação que guardo viva até o presente momento é a Festa das Nações, realizada todos os anos, em maio, pela Paróquia Santa Rita de Cássia. Após participar e servir nas missas que antecedem as noites da festa, em seguida, juntamente com minha mãe e membros da comunidade, vamos saborear as opções do cardápio. Yakissoba, sopas ucranianas, mini pizzas, entre outros pratos. E tudo isso acompanhado de show de evangelização. No último domingo da festa, é quando o coração bate mais forte, pois o evento está se encerrando, já na espera pelo ano seguinte, mas antes, com a expectativa de vencer no show de prêmios."
Karoline Rodrigues de Oliveira
28 anos - auxiliar de escritório
"Como diz o ditado, conheço a Praça Hulda Roedel 'desde que me entendo por gente'. Me criei no bairro da Ronda e a pracinha era um dos passeios mais legais na época de infância, onde se juntava com as irmãs e primas para brincar. Nós chegávamos, corríamos para os balanços e escorregador, fazíamos amizades com as outras crianças que ali também brincavam e o tempo passava e nem percebíamos. Velhos bons tempos que sempre ficarão guardados na memória."

Ana Paula Maciel
39 anos - confeiteira
"Na minha infância conheci a praça Hulda Roedel. Lembro-me de que eu, minha irmã e minha prima íamos às missas todos os domingos na Igreja Santa Rita e, no final, saímos correndo para ir brincar na praça."
Kaoana Paola dos Santos
27 anos - analista administrativo
"Uma das minhas lembranças mais marcantes posso considerar de quando era criança e ia andar de bicicleta na frente da praça, e tinha uma sorveteria onde íamos para descansar e comer sorvete."
Pamela Kauana Santos Rechetzki
29 anos - vendedora
"Foi nessa praça que aprendi a andar de bicicleta e patins. Ficava até tarde da noite brincando com os amigos de pega-pega, esconde-esconde, bets. Era muito legal, foi uma infância divertida e bem vivida."
Vanessa de Souza Matos
30 anos - professora
"Em 2012, comecei a namorar e, como éramos adolescentes e não tínhamos dinheiro para sairmos para comer em lugares chiques, resolvemos fazer um piquenique na Praça Hulda Roedel, pois ali tinha um gramado enorme e acolhedor. No dia, levamos uma toalha e comidinhas que gostávamos. Essa é uma boa lembrança que contamos para os nossos filhos hoje em dia."
Janaina Viante Ribeiro
36 anos - vendedora
"Em 2024 nós fomos em família na Praça Hulda Roedel, em uma noite uns dias antes do Natal. Levamos as crianças para andar de bicicleta; estava tudo lindo, enfeitado de Natal, cheio de luzes e decorações rosa. Passeamos muito e tiramos várias fotos."

Rosana Ribeiro
39 anos - agente de saúde
"Na infância, sempre ia brincar na Praça Hulda Roedel de bicicleta, no parquinho, escorregava com papelão."
Sofia Carraro
9 anos - estudante
"Uma lembrança boa foi quando fui na Festa das Nações. Comi quirera e um monte de coisas. Também foi lá a primeira vez que andei de roller."
Sofia Rafaelly Amaral Ferreira
9 anos - estudante
"Eu conheci quando tinha
3 anos. É um lugar feliz, divertido. Uma vez eu
estava brincando de
pega-pega e caí de
cara no chão."
Marcos Antônio Pinheiro
45 anos - carteiro
"Quando era pequeno eu ia na Igreja Santa Rita. Tenho memórias da época que ia pra catequese, aos sábados. Eu ia antes pra poder brincar no parquinho."
Elisandra dos Santos
45 anos - zeladora
"A Praça Hulda Roedel representa minha memória infantil na década de 80, brincando na praça dos brinquedos, areia e da catequese na igreja Santa Rita de Cássia. Tínhamos um grupo de primos e amigos que juntavam dinheiro para ir comprar uma rede e uma bola de vôlei pra poder jogar praticamente todas as tardes. Era nossa diversão, muitas saudades."

Fernanda Sales
26 anos - auxiliar de cozinha e forneira
"Este lugar é conhecido desde a minha infância. Lugar onde era minha diversão, onde era meu lugar de passeio, e que hoje em dia é da minha filha."

DÉCADAS DE MEMÓRIAS
Clique nos nomes e conheça histórias de quem viu a praça se transformar ao longo dos últimos 40, 50, 60 anos...
A praça do Natal Rosa

Alberto Portugal
Secretário Municipal de Cultura
texto por Tamires Limurci
A ideia começou com movimento. Ao observar a quantidade de pessoas que passavam pela Praça Hulda Roedel durante a Festa das Nações, Alberto Schramm Portugal, ou simplesmente Beto, percebeu que aquele espaço tinha potencial para ir além. A circulação intensa, de quase 30 mil pessoas ao longo do evento, indicava algo maior: a possibilidade de transformar a praça em um ponto de atração contínua dentro da cidade.
Dentro de um projeto de descentralização cultural de Ponta Grossa, pensou-se em levar a decoração de Natal para diferentes regiões, criando um roteiro que incentivasse as pessoas a circularem por outros espaços urbanos, para além da região central. A praça, então, entrou nesse planejamento como um dos pontos estratégicos.
Em março de 2024, a decisão foi tomada e a produção começou. Em novembro, a montagem estava em andamento. O tema escolhido foi 'Natal Rosa', com predominância de tons de rosa e branco na decoração. A escolha estética trouxe um desafio inesperado para a equipe: a dificuldade de encontrar enfeites natalinos nessas cores. A solução foi adaptar, sendo que muitas peças foram pintadas manualmente para compor a proposta visual.
O envolvimento do processo foi direto pela parte de Alberto, que participou da montagem, trabalhando na decoração da casinha da Mamãe Noel, pintando móveis e organizando os elementos no espaço. Em meio à montagem, surgiu a percepção de que faltava um ponto de destaque no canteiro central da praça. Foi então que decidiram instalar um boneco grande de Papai Noel, feito em fibra de vidro. Após a instalação, ele próprio iniciou a pintura com spray rosa, integrando o personagem ao conceito escolhido para a decoração.
A cena seguinte ficou marcada na mente de Beto. Enquanto a equipe finalizava o trabalho, três homens estavam sentados próximos, observando tudo. Ao término da montagem, quando o grupo começava a recolher os materiais, um deles se levantou, aproximou-se da escultura recém-pintada e, indignado, agarrou o Papai Noel gritando: “até onde vai a maldade do ser humano? Que que fizeram com você, véio!”.
A reação provocou riso na equipe. O homem não gostou. Mas, ao mesmo tempo, as crianças que estavam acompanhando o trabalho demonstraram entusiasmo com o resultado. Entre estranhamento, dificuldades e diversão, o Papai Noel cor-de-rosa acabou cumprindo o seu papel, chamando atenção, provocando reações e transformando a praça numa verdadeira experiência natalina.
A praça do esporte e do hip hop

Gueg
rapper
texto por Tamires Limurci
Houve um tempo em que a praça da Ronda estava sempre cheia. Desde a infância, Ismael Alves dos Santos, conhecido como Gueg, viveu a Praça Hulda Roedel como um espaço de encontro constante, reunindo apaixonados do esporte ao hip hop. Era ali que passava grande parte do tempo, participando ou assistindo às atividades que aconteciam diariamente.
No começo, a estrutura era precária. A quadra era de saibro, desgastada, com traves tortas e o chão irregular. Ainda assim, isso não impedia o uso. Pelo contrário: a praça reunia muita gente. Os torneios de futebol eram frequentes e mobilizavam a comunidade. Ele se lembra de nomes como Pelé, Bicudo e Fio, figuras que organizavam os jogos e ajudavam a manter o espaço ativo no início dos anos 1990. Com o tempo, vieram mudanças.
A praça passou por uma reforma importante. A quadra foi transformada em cimento, adequada para diferentes modalidades: futebol de salão, basquete, vôlei e handebol. Também havia um guardião responsável pelo espaço, além de brinquedos para as crianças. A estrutura permitiu ampliar o uso e diversificar as atividades. Foi nesse momento que o esporte ganhou outra dimensão. Projetos da Secretaria de Esportes começaram a ocupar a praça, como o Projeto Ademar Ferreira da Silva, por volta de 1992 ou 1993. As atividades aconteciam durante a semana, de manhã e à tarde, com participação de crianças da comunidade e de escolas. Ao final, havia lanche, algo que, para muitos, fazia diferença em um contexto de vulnerabilidade social.
A presença constante transformava o espaço. Professores organizavam treinos e competições entre praças, e a rotina esportiva ampliava as possibilidades para quem frequentava o local. Ismael, que inicialmente se interessava pelo futebol, passou a praticar também basquete, vôlei e handebol. O contato com essas modalidades ajudou a ampliar sua visão sobre o esporte como possibilidade de caminho. Os jogos de fim de semana reuniam equipes e torcidas, muitas vezes organizadas em torno de clubes como Corinthians e São Paulo. Havia rivalidades, consumo de bebida e conflitos. Ainda assim, esses eventos mantinham a praça cheia e ativa.
Com o passar dos anos, esse movimento diminuiu. As atividades foram rareando até praticamente desaparecerem. Diante disso, surgiu a necessidade de reagir. A partir dos anos 2000, Ismael passou a organizar eventos de hip-hop voltados para crianças e jovens da comunidade. As iniciativas incluíam montagem de palco, apresentações de rap, distribuição de cestas de Natal e atividades recreativas.
A praça, no entanto, também atravessou períodos difíceis. Houve momentos em que a violência era frequente, gerando medo entre os moradores e afastando a circulação de pessoas. Com o tempo, essa imagem foi sendo transformada e hoje o espaço conta com melhor manutenção e iluminação. Para ele, o principal desafio atual é evitar que o lazer desapareça completamente. A praça, que já foi centro de convivência, esporte e cultura, corre o risco de se tornar apenas um espaço físico sem uso coletivo. E é nesse ponto que a memória se torna também um alerta.
CRÔNICA
O mesmo lugar, outro tempo
por Érica Busnardo
Há lugares que não mudam de endereço, mas mudam de tempo. Geni Soares percebe isso a cada dia que atravessa a praça Hulda Roedel, na Ronda. Há décadas, todos os dias ela faz o mesmo caminho.
Começou menina, de mãos dadas com a mãe, a caminho da missa. No meio do percurso, havia sempre um desvio que era inevitável: os balanços. A praça, naquele tempo, não era caminho. Era pausa. Era riso solto, corpo leve, tempo sem pressa. Era assim que a vida começava a se misturar com o lugar.
O trajeto permaneceu com o passar dos anos, mas quem caminhava já era outra. A menina cresceu, ficou, construiu família, criou filhos, e a praça foi ficando também. Deixou de ser só um espaço de infância para se tornar extensão da rotina, quase um prolongamento da casa e da fé. Entre sua casa e a paróquia Santa Rita de Cássia, a quem tantos recorrem quando o resto falha, a praça é território silencioso, onde o cotidiano se organiza sem que ninguém perceba.
Ela viu o tempo acontecer ali sem pedir licença. Viu o filho atravessar o mesmo espaço que um dia foi seu. Viu-o sair da escola e correr para a quadra, jogar bola até se esquecer da hora, obrigando o pai a ir busca-lo. Viu a praça cheia de crianças. Tão cheia que ganhou um apelido: a pracinha das crianças.
Hoje, onde o barulho se espalhava, o silêncio fica mais evidente. Não é uma quietude tranquila. É ausência. O tipo de ausência que muda o jeito de passar. A estrutura mudou, o tempo passou, e o que antes era permanência virou, muitas vezes, passagem distraída. A falta das crianças não precisa ser explicada. Ela é sentida. Pais já não deixam filhos sozinhos ali. A praça, que acolhia, agora exige cautela.
Mas há um momento em que tudo retorna. Em maio, com a Festa das Nações, a praça acorda diferente. Gente chegando de todo lado, barracas nascendo onde antes havia só passagem, vozes que se cruzam, cheiros tomando o ar. Há pressa e demora ao mesmo tempo. Geni está lá, em frente à barraca chinesa, desde o começo. Chega cedo, fica até o fim, como quem sustenta o dia para que ele não desabe.
Teve um ano em que a água da chuva tomou conta de tudo. A quadra virou espelho, as barracas quase se perderam. E, ainda assim, ninguém arredou o pé. De rodo na mão, a água sendo empurrada de volta para fora, como se fosse possível negociar com a chuva. A festa continuou porque havia gente decidida a não deixar aquele momento acabar.
Quando o ano se encaminha para o fim, há outra transformação. A praça se deixa acender. Luzes começam a surgir entre as árvores, contornos se desenham onde antes havia sombra, e o espaço se veste de um outro tempo. Desde 2024, a decoração de Natal fez dali um convite, não apenas para passar, mas para permanecer. À noite, quando as luzes se revelavam por inteiro, o movimento mudou de ritmo, pessoas passeavam sem pressa, atravessavam a praça devagar, prolongaram o caminho. A praça, então, recuperou um pouco do que já foi, um lugar de encontro, de encantamento, de pausa.
É assim que alguns lugares se mantêm. Não pelo que têm, mas por quem fica. No resto do ano, a praça segue no seu compasso mais discreto. É caminho para o ponto de ônibus, ponto de encontro antes da missa, lugar de atravessar. Leva e traz gente, encosta histórias, atravessa dias.
E Geni continua passando. Todos os dias. Há algo silenciosamente obstinado nisso. Ao repetir o trajeto, ela mantém vivo não só um hábito, mas uma forma de pertencimento. Como se cada travessia dissesse: ainda estou aqui.
A praça, mesmo vazia na maior parte do tempo, nunca está só. Cada sombra, cada banco, cada árvore carrega os ecos do que já passou e do que ainda acontece. Ela não espera nem repousa. Simplesmente existe, dobrando o tempo sobre si mesma, resistindo, mesmo quando tudo em volta muda.


Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski
Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo
Narração do podcast: João Agner
Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,
João Fogaça e Vinicius Orza


