
Olho d´água
São João Maria
BAIRRO:
Neves
Entre o final do séc. XIX e início do séc. XX, três monges peregrinos percorreram o Sul do Brasil. Por terem trajetórias muito parecidas, suas figuras se unificaram no imaginário popular como um só: Monge São João Maria. E é a partir da sua passagem por Ponta Grossa que surgiu este espaço ecumênico, onde ele teria se abrigado e abençoado a nascente d’água.

CRÔNICA
Mãos de arruda, água de São João
por Érica Busnardo
Há mais de cinquenta anos morando no bairro Neves, Dona Delair Pires Veoldolin faz do caminho até o olho d’água São João de Maria quase uma extensão do seu quintal. Desce a rua, atravessa a calçada, desce as escadas e alcança a bica. É perto. Sempre foi. E é ali que ela deposita o que tem de mais firme: a sua fé.
Delair tem São João de Maria como padrinho e intercessor. Ele está todas as suas rezas. Quando alguém a procura, ela repete com a segurança de quem conhece o caminho: quem pede com fé alcança. Sem isso, a fonte é só água e pedra fria.
Ela tinha sete anos quando decidiu por conta própria que seria batizada no olho d'água. Não foi promessa de adulto, nem costume de família. Foi escolha. Queria o sacramento no lugar onde o santo escolhera para viver, depois de ser agredido por crianças. Onde ele tocou o chão e a água santa brotou. Ela mesma escolheu a madrinha e desceu até a bica com a segurança de quem já sabia a quem confiar a própria vida. Mais de meio século depois, ela continua descendo até lá. Agora leva esperanças de terceiros e retorna com a certeza de que o pedido foi ouvido e será atendido.
O olho d’água faz parte da sua rotina. Vai ao menos uma vez por semana. Reza, conversa com São João de Maria, molha a cabeça, o peito, os braços. Enche garrafas. A água que leva dali não é lembrança. É ferramenta de trabalho. Delair é benzedeira.
Quem bate à sua porta encontra um gesto calmo, uma oração sussurrada, um ramo de arruda entre os dedos e o terço na outra mão. Ao final do ritual, ela molha a planta num pote da água de São João de Maria e traça o sinal da cruz diante da pessoa benzida. Ela faz isso com toda a segurança de quem cumpre com uma missão sagrada. E confia porque já viu o que essa água é capaz de fazer.
Conta da criança que não andava e foi colocada de pé na água fria, à bica e, ali mesmo caminhou. Do menino que não falava e, benzido com aquela água, começou a formar palavras. Do homem com problemas graves de visão que lavou os olhos na fonte e passou a enxergar o mundo de um jeito melhor. Ela narra isso sem espetáculo. Fala com a tranquilidade de quem descreve o cotidiano do seu trabalho.
Delair atende cerca de dez pessoas por dia, de segunda, terça, quinta e sexta-feira. A quarta é reservada ao descanso e à dança. De afilhados, já são 45 na conta mais recente. Todos batizados na fonte. Houve um tempo, lembra ela, em que suas ferramentas incluíam também o barrinho formado logo abaixo da bica. Muita gente aplicava no corpo para curar feridas. Hoje ele não existe mais. O local onde se formava foi coberto por pedras para conter a erosão.
Ela conhece cada mudança dos últimos 50 anos. Lembra quando a própria comunidade limpava o espaço. Fala de um tempo em que havia mais cuidado e silêncio. Hoje vê abandono, gente dormindo por ali, menos zelo. Ainda assim, a água continua brotando e abençoando quem procura por ela. E é nisso que Delair se apoia.
Enquanto água da fonte cair sobre as pedras, ela continuará fazendo o mesmo caminho que começou na infância. Desce a quadra que separa sua casa do olho d´água, reza, molha o corpo, enche as garrafas, volta para casa, benze pessoas. O tempo passou, o bairro cresceu, as gestões mudaram, o barrinho desapareceu. A água continua jorrando da fonte. E Dona Delair mantem-se ainda em seu ritual sagrado.



Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski
Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo
Narração do podcast: João Agner
Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,
João Fogaça e Vinicius Orza


