top of page
  • Facebook
  • Instagram
background verde.jpg

Escola Mun.
Idália Góes

DISTRITO:
Piriquitos (Cristo Rei)

A escola teve início na década de 1960, quando a professora Idália Góes passou a lecionar em um espaço improvisado na própria comunidade, diante da ausência de estrutura escolar na região. Com o aumento da demanda, as aulas foram transferidas até a construção do prédio próprio, inaugurado em 1986, no bairro Periquitos, onde se consolidou como escola de ensino fundamental.

Escola Municipal Idália Goes.jpg

CRÔNICA

A escola que nasceu antes do nome

por Érica Busnardo

Há escolas que se constroem com tijolos. Outras, com gente. Em Periquitos, existe uma que começou antes de existir, quando ainda era só vontade. Antes de ter nome, antes de ter paredes, antes de qualquer documento oficial, a escola já estava de pé. Era uma professora, um banco de madeira, algumas crianças e um silêncio que esperava ser preenchido. Não havia quadro, não havia cadeiras, não havia sequer o gesto aprendido de ser professora. Havia apenas o impulso de não deixar o outro sem caminho.


Hoje, quem observa a estrutura sólida da escola municipal, com seus pátios organizados e o movimento vibrante de alunos e professores, dificilmente consegue enxergar, sob o reboco das paredes modernas, o alicerce invisível construído por uma mulher que parecia carregar o mundo nos ombros.


A história daquela escola de Periquitos não começou com plantas arquitetônicas ou verbas governamentais, mas no silêncio de uma antiga serraria abandonada, cedida por um pai que temia a bagunça, mas acreditava na filha. Idália, neta de italianos e filha da terra, herdara o rigor do trabalho braçal e a doçura do canto que ouvira contar, entoado pelo avô em Milão. Quando o ensino oficial ainda era uma miragem para aquela comunidade isolada, ela transformou o pó de serra em pó de giz.  


Naqueles primeiros dias, o cenário era de uma beleza rústica e doída. Os alunos ajoelhavam-se no chão batido, usando bancos compridos de madeira como mesas improvisadas. Ali, entre as frestas das paredes, por onde o vento de inverno assoviava, o alfabeto era desenhado com a solenidade de uma oração. Idália não era apenas a professora. Era a arquiteta de um futuro que aqueles meninos e meninas ainda não que podiam ter. 

 
Com as mãos marcadas pelos calos da lida, ela manejava o giz e, simultaneamente, o panelão de ferro enquanto as crianças faziam as tarefas. Cozinhava a dignidade entre uma aula e outra, buscando verduras com vizinhos e fazendo rifas para que o fogo nunca se apagasse. Não havia separação entre ensinar e cuidar, porque uma coisa dependia diretamente da outra. 


O milagre da merenda era sua maior recompensa. Ela via, em silêncio, a transformação física de seus pequenos: o rosto amarelado e apático das crianças do campo ganhando, em poucos dias, o viço das bochechas rosadas. O torpor da anemia era substituído pela algazarra do recreio. A escola era, enfim, o lugar onde a fome de saber encontrava o conforto da saciedade. Ela chorava escondida, pedindo a Deus que nunca faltasse o alimento, pois sabia que uma criança alimentada é uma criança que se atreve a sonhar.


Idália insistiu muitas vezes para que aquela escola fosse reconhecida. Bateu em gabinetes que se mantinham fechados, ouviu que não era necessário abrir outra escola, que já existia uma distante o bastante para justificar a ausência. Ainda assim, ela voltou, pediu novamente, sustentou a ideia até que ela deixasse de ser apenas vontade e se tornasse estrutura. 


Nesse tempo, a escola foi crescendo, ganhou paredes, carteiras e reconhecimento. Mudou de nome algumas vezes, como se buscasse o lugar certo na memória do bairro, até que a justiça da memória decidiu que ela deveria levar o nome de quem lhe deu o sopro de vida: Escola Municipal Idália Góes.


A homenagem, recebida com a surpresa de quem nunca buscou os holofotes, não estava apenas na placa de metal na entrada. Estava gravada na trajetória de engenheiros, médicos e professores universitários que, décadas antes, foram aqueles meninos e meninas descalços aprendendo a ler sob o teto da antiga serraria.  


Mesmo após a aposentadoria, a professora não se permitiu o silêncio. Na sua chácara, ela ergueu um novo conservatório particular. O piano, trazido de longe com o suor de prestações que consumiam seu salário minguado, tornou-se o novo centro do seu universo. Entre um exercício de impostação de voz e uma nota de acordeão, ela continuou a lapidar talentos.


 Hoje, ao ensinar música aos netos de antigos alunos, Idália se permite um leve rubor ao ouvir frases como “as plantas dançam quando você toca” ou “sou filho de um aluno seu”, mostrando a ela que a história continua. E ela sorri com discrição, como quem não se acostuma ao encanto que provoca, e guarda essas pequenas recompensas que a vida lhe entrega sem aviso. 


Quando visita a escola que leva seu nome, Idália caminha com a postura de quem conhece o peso de cada tijolo. Ela é a única memória viva de um tempo em que educar exigia, além de sabedoria para ensinar, coragem para abrir espaço e colher de pau para garantir que ninguém aprendesse com fome.


A escola de Periquitos é, em última análise, o seu grande solo lírico. Idália Góes provou que a educação não se faz apenas com currículos, mas com fôlego e o calor do fogão. Ela não apenas alfabetizou gerações.  Semeou o futuro de uma comunidade inteira, ensinando que, para quem aprende a ler, a cantar e a se alimentar de dignidade, o horizonte nunca é o fim da estrada, mas apenas o começo do voo. 


Algumas escolas formam alunos. Outras formam destinos. A de Idália fez mais do que isso: transformou vidas.

Escola Idália Góes.jpg

Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski

Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo

Narração do podcast: João Agner

Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,

João Fogaça e Vinicius Orza

bottom of page