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Clube Santa Cecília

BAIRRO:
Uvaranas

Com origem na década de 1960 e estruturação em 1968, o clube integrou o circuito dos espaços sociais de Ponta Grossa, com destaque para bailes, festas e eventos comunitários. Na década de 1990, passou por transformações, incluindo a venda de parte da sede social. Atualmente, mantém suas atividades voltadas à convivência e práticas esportivas no bairro Uvaranas, com nome de Sociedade Recreativa e Beneficente Santa Cecília.

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CRÔNICA

Um ponto basta

por Érica Busnardo

A porta daquele pequeno pedaço de Uvaranas abre todos os dias. Não importa se chove, se esfria, se a tarde chega mais vazia ou mais cheia. Sempre tem alguém que chega primeiro, empurra a entrada com a mesma mão de anos atrás e entra como quem cumpre um combinado antigo, desses que o tempo não desmarca.


Lá dentro, o Clube Santa Cecília já não tem o mesmo desenho de antes. Parte do espaço foi se transformando ao longo dos anos, acompanhando os próprios caminhos da sua história. Em um desses momentos, um pedaço acabou sendo vendido em meio a decisões difíceis, que o tempo não deixou voltar atrás. O que ficou se reorganizou ao presente: uma cancha, algumas mesas e paredes que foram sendo refeitas com o tempo. E gente. Gente que permanece, fazendo o clube acontecer.


Essa teimosia em ficar tem raízes profundas. Fundado oficialmente em 1964, o clube nasceu do esforço bruto. Rogério, presidente, que hoje cuida do bar e da manutenção, lembra-se do tempo em que as paredes eram de pau a pique. Os sócios buscavam eucaliptos no mato para erguer o teto que abrigaria as primeiras canchas. Ali, o suor da construção e o pó das ruas de terra batida se transformaram em convivência e lazer. Com o tempo, o clube social, palco de carnavais e bailes de mães, foi se desfazendo, ficando apenas o barracão da bocha como a fortaleza de uma comunidade que se recusa a dispersa.


Nem sempre foi assim, pequeno. Houve um tempo em que o Santa Cecília era mais movimentado. Duas canchas, bailes nos fins de semana, portas abertas ligando diferentes espaços. Luz acesa até tarde, música, encontros, promessas de noite que não acabava cedo. Mas o tempo foi mudando a paisagem, ajustando o ritmo, reorganizando o espaço. E o clube foi se reinventando para seguir existindo do jeito possível de cada época.

Quem chega agora já não vem pelo baile. Vem pelo encontro, pela conversa, pelo jogo, pelo hábito que atravessa anos. Tem dias que aparecem quarenta pessoas. Outros, menos. A maioria dos frequentadores já passou dos 70 anos, alguns encostam nos 80, e os apelidos continuam sendo mais importantes que os próprios nomes: Camburão, Balarote, Milho Verde, João Barão. Ali dentro, ninguém precisa de documento para ser reconhecido.

 
A bola corre devagar na cancha de bocha. Alguém mede. Alguém discute. Alguém ri. E, entre uma jogada e outra, a conversa vai preenchendo o espaço que o clube perdeu em paredes. Falam de trabalho, de histórias da cidade, de notícias da família, de quem não veio naquele dia, de quem já fez parte dessa trajetória e segue presente nas memórias do grupo. Aos poucos, o clube vai se construindo nesse movimento simples de presença diária, de encontros que se repetem.


É nessa cancha, que permanece entre o pó do carpete e o peso das bolas de resina, que a rotina ganha a precisão. Se o clube diminuiu em tamanho, ele cresceu em destreza nas mãos de Neiva Heck Gasparelo, que brilha em meio à hegemonia masculina. De tanto observar os homens jogarem enquanto trabalhava ali, ela ouviu o desafio silencioso de alguém: “vai". Ela foi.


Hoje, Neiva é tricampeã paranaense de bocha. É a única mulher de Ponta Grossa que encara o peso de 900 gramas de cada jogada com a naturalidade de quem maneja a própria história. Ela treina com os veteranos, viaja para competições no oeste do estado e volta ao Santa Cecília como quem retorna a uma base. Quando Neiva lança a bola, o silêncio daquelas da cancha é interrompido pelo estalo seco do acerto. É o jogo afirmando a sua continuidade.


Enquanto a bola de Neiva percorre a cancha, as mesas de carteado sustentam outro tipo de encontro. Rosa Maria Ferreira Araújo, Zeli Feghali e as amigas formam o grupo que elas mesmas chamam de "as atletas". 


Nas quartas e sextas-feiras, quando se sentam para a caixeta, o ritmo da noite muda. As conversas correm soltas, os risos se repetem, e as preocupações ficam do lado de fora da porta, que é fechada à meia-noite apenas por segurança, garantindo tranquilidade ao grupo durante o período de convivência. Lá dentro, o tempo não tem autoridade.


O Santa Cecília é também uma espécie de abrigo. “Isso aqui é minha segunda casa”, diz João Barão, sem esforço, como quem não diz nada de especial. Mas está. João carrega a história no próprio apelido. Entrou no clube em 2000 como motorista de seu antigo patrão, o industrial J. Barão. Enquanto esperava o chefe terminar o jogo, João "rolava a bola" sozinho. Do volante para a cancha, tornou-se profissional, federado, um dos grandes nomes da casa. O sobrenome do patrão virou identidade.  


Nas terças-feiras, dia de bocha, o futuro quase não entra nas conversas. Não há grandes planos desenhados, mas há a continuidade do hábito. No fim da tarde, alguém marca mais um ponto. A bola encosta quase sem barulho. Medem. Confirmam. Um ponto só. Pequeno, mas suficiente. 


Assim Santa Cecília segue existindo no que é simples e constante, no vínculo entre quem frequenta, na memória compartilhada e na continuidade de um espaço que atravessa os anos. Permanece aberto no gesto simples de quem chega, puxa a cadeira e espera a próxima jogada. E a vida, ali, vai acontecendo sem pressa de terminar.

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Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski

Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo

Narração do podcast: João Agner

Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,

João Fogaça e Vinicius Orza

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