
Clube
Olinda
BAIRRO:
Olarias
Fundado em 1920 por trabalhadores da Serraria Olinda, no bairro Olarias, o clube surgiu vinculado à prática do futebol e à vida operária. Ao longo do século XX, consolidou-se como espaço esportivo e social, com realização de bailes, carnavais e eventos comunitários. Em 1990, passou por processos de reorganização, mantendo o campo ativo e retomando atividades esportivas e festivas.

Cintia
38 anos - estudante
"A primeira vez que entrei na Associação foi aos meus 6 anos de idade, em 1993, mas conheço desde"

Ananias Pereira e sua relação com o Bar do Pelé
por Tamires Limurci
O caminho levava até o Bar do Pelé, no Guaragi. Era lá que o torneio de futebol estava marcado. Ananias Pereira lembra de saírem todos juntos, de carro, como quem já estava pronto para marcar. Chegaram no meio da manhã, desceram e entraram no bar para perguntar pelo jogo.
O Pelé não sabia de nada. Disse que não tinha torneio nenhum ali naquele dia, pensou que foi confusão. Mesmo assim, ninguém voltou para Ponta Grossa. Já estavam no bar, decidiram ficar. Ananias, que na época vendia embalagens, lembrou de um pacote que estava no carro e chamou o Pelé para conferir. Ele gostou e comprou ali mesmo, no balcão, como se aquilo já fizesse parte da viagem.
A manhã foi passando. Veio cerveja, veio a porção de lambari, aquela que todo mundo conhecia. Foram se acomodando, conversando, olhando o movimento, sem muita pressa de ir embora. O jogo perdido ainda estava na cabeça, mas o bar já tinha tomado conta do tempo. Quando chegou perto do meio-dia, veio o telefonema: o torneio não era ali.
O jogo estava marcado para Guaramiranga, 80 km de distância dali. Ninguém pensou muito. Pagaram a conta, chamaram o filho do Pelé para completar o time e pegaram a estrada de novo. No caminho, ainda fizeram uma parada. E ali, depois de já terem bebido e comido no bar, decidiram almoçar de verdade.
Espeto corrido, mesa cheia, mais conversa. Só depois seguiram para o jogo. Quando chegaram, entraram em campo assim mesmo. Empataram o primeiro. O segundo ficou para mais tarde, já no fim do dia, quando o corpo começava a pesar. Jogaram do mesmo jeito. E depois voltaram.
Ele conta rindo, lembrando de cada parte como se tudo tivesse acontecido sem muito plano. O torneio aconteceu, mas o dia foi outra coisa. Começou no bar do Pelé, com uma pergunta que não teve resposta, e foi seguindo cerveja, lambari, estrada, almoço, jogo. Tudo meio fora de ordem, mas deu certo.
68 anos - aposentado
CRÔNICA
A rainha que o samba guardou
por Érica Busnardo
Na Rua Curitiba, pedaço de Olarias onde a década de 50 ainda andava de vestido rodado e passos contidos, morava Dirce Soltes. Jovem, bela e educada para caber no mundo do jeito certo. Naquele tempo, as regras eram claras. As meninas aprendiam cedo a baixar os olhos, dobrar a roupa, rezar antes de dormir. Dirce aprendeu tudo direitinho.
A cidade de Olarias era o seu território. Ali ela cresceu, atravessando a infância, a adolescência e a juventude entre a escola, os afazeres domésticos, os grupos de oração, como toda moça recatada. O Clube Olinda, espaço respeitado e frequentado por famílias de sobrenomes conhecidos, fazia parte desse roteiro bem-comportado.
Dirce seguia as regras sem contestação, mas carregava um segredo, guardado no lugar mais improvável e seguro: o próprio corpo. Quando se aproximava o Carnaval, época em que Olarias respirava o samba, no silêncio do quarto, com a porta trancada, ela se permitia ser outra. As baterias das agremiações ensaiavam ali perto, e o ritmo atravessava paredes. Quando o primeiro surdo batia, ela fechava os olhos e o quarto virava passarela. Ao som dos surdos e tamborins, entregava-se.
A cada ano, algo nela se soltava um pouco mais. O corpo aprendia sozinho aquilo que não se ensinava às moças direitas. Com o tempo, quando os braços já sabiam ir para o lado oposto da perna e a pisada ditava o tempo com precisão, Dirce decidiu que não sambaria mais na companhia da própria solidão. Era hora de ver o Carnaval de perto. Foi à rua acompanhar as batidas e, sem saber, cometeu um pecado. O castigo veio rápido: foi expulsa do tradicional grupo Filhas de Maria, da Catedral de Ponta Grossa. Uma sentença silenciosa, dessas que não levantam a voz, mas pesam como pedra.
Esperavam arrependimento, mas o que Dirce entregou foi rebeldia. No ano seguinte, em 1959, lá estava ela, para espanto geral, disputando o título de Rainha do Carnaval do Clube Olinda. Houve desdém, cochichos, olhares que condenavam antes mesmo do samba começar. Mas bastaram os primeiros repiques para que a sentença perdesse espaço. Os pés marcavam o tempo, os quadris respondiam, os braços acompanhavam com naturalidade. Os olhares, antes duros, ficaram suspensos. O ritmo encantou a diretoria do clube e, naquele ano, Dirce foi eleita Rainha do Carnaval.
Nada a impediria de cumprir seu reinado. Nem mesmo o namorado, Antônio, que se colocou contra o título. Primeiro tentou fazê-la desistir com pedidos. Depois, com ultimatos. Disse que terminaria o namoro se ela insistisse naquela ideia de ser Rainha do Carnaval do Olinda. Dirce não discutiu. Apenas respondeu com um seco e vago “você que sabe”. Porque ela sabia que reinados não pedem permissão. Assim, sob a guarda do samba, vestiu-se de coragem e seguiu. Às claras, para fora do quarto.
Viveu aquele ano como quem cumpre um ritual de plenitude. Brilhou nos bailes de todos os clubes de Ponta Grossa, representando o Olinda. Sambou sob luzes e olhares. A saia girava larga, sustentada por anáguas coloridas como um arco-íris que insistia em existir mesmo nos dias cinzentos. Em alguns bailes, via Antônio, de soslaio, observando-a em silêncio, como quem espiava um mundo que já não mais controlava. Ela não se incomodava. Estava inteira demais para caber em dúvida.
No Carnaval seguinte, o samba silenciou um pouco. A rainha do Olinda não se candidatou novamente ao título. Em nome do amor, abriu mão da coroa. Casou-se com Antônio, guardando o ritmo no fundo do baú, com a esperança de algum dia resgatá-lo.
O casamento foi um ritual de encerramentos. A igreja se encheu de flores arrumadas pelas mesmas Filhas de Maria que, dois anos antes, haviam-na expulsado por ousar assistir ao Carnaval de rua. A festa aconteceu no mesmo salão do Clube Olinda onde, no ano anterior, Dirce fora coroada Rainha. E, ali, entre mesas e olhares cruzados, ela dançou pela última vez, sem saber que se despedia.
Depois, a vida encolheu, e já não havia espaço para a folia. Vieram os filhos, a casa, um novo bairro, os dias que se repetiam. A beleza da juventude foi ficando pelo caminho, levando junto o compasso e o gingado. Olarias tornou-se visita rara. Dirce não teve tempo para sentir saudade. Havia sempre algo a ser feito, alguém a cuidar, uma rotina inteira a sustentar. Ainda assim, havia brechas.
O Carnaval de 1959, guardado em outra parte do tempo, voltava sem aviso. Nessas horas, seus olhos se acendiam e o sorriso se abria largo no rosto. O corpo permanecia quieto, mas não indiferente. Já o samba, que ela prometera resgatar um dia, permaneceu no fundo do baú, restrito aos limites da memória, onde nunca deixou de ser rainha.


Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski
Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo
Narração do podcast: João Agner
Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,
João Fogaça e Vinicius Orza


