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Clube
Olinda

BAIRRO:
Olarias

Fundado em 1920 por trabalhadores da Serraria Olinda, no bairro Olarias, o clube surgiu vinculado à prática do futebol e à vida operária. Ao longo do século XX, consolidou-se como espaço esportivo e social, com realização de bailes, carnavais e eventos comunitários. Em 1990, passou por processos de reorganização, mantendo o campo ativo e retomando atividades esportivas e festivas.

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CRÔNICA

A rainha que o samba guardou

por Érica Busnardo

Na Rua Curitiba, pedaço de Olarias onde a década de 50 ainda andava de vestido rodado e passos contidos, morava Dirce Soltes. Jovem, bela e educada para caber no mundo do jeito certo. Naquele tempo, as regras eram claras. As meninas aprendiam cedo a baixar os olhos, dobrar a roupa, rezar antes de dormir. Dirce aprendeu tudo direitinho.

A cidade de Olarias era o seu território. Ali ela cresceu, atravessando a infância, a adolescência e a juventude entre a escola, os afazeres domésticos, os grupos de oração, como toda moça recatada. O Clube Olinda, espaço respeitado e frequentado por famílias de sobrenomes conhecidos, fazia parte desse roteiro bem-comportado.

Dirce seguia as regras sem contestação, mas carregava um segredo, guardado no lugar mais improvável e seguro: o próprio corpo. Quando se aproximava o Carnaval, época em que Olarias respirava o samba, no silêncio do quarto, com a porta trancada, ela se permitia ser outra. As baterias das agremiações ensaiavam ali perto, e o ritmo atravessava paredes. Quando o primeiro surdo batia, ela fechava os olhos e o quarto virava passarela. Ao som dos surdos e tamborins, entregava-se.

A cada ano, algo nela se soltava um pouco mais. O corpo aprendia sozinho aquilo que não se ensinava às moças direitas. Com o tempo, quando os braços já sabiam ir para o lado oposto da perna e a pisada ditava o tempo com precisão, Dirce decidiu que não sambaria mais na companhia da própria solidão. Era hora de ver o Carnaval de perto. Foi à rua acompanhar as batidas e, sem saber, cometeu um pecado. O castigo veio rápido: foi expulsa do tradicional grupo Filhas de Maria, da Catedral de Ponta Grossa. Uma sentença silenciosa, dessas que não levantam a voz, mas pesam como pedra.

Esperavam arrependimento, mas o que Dirce entregou foi rebeldia. No ano seguinte, em 1959, lá estava ela, para espanto geral, disputando o título de Rainha do Carnaval do Clube Olinda. Houve desdém, cochichos, olhares que condenavam antes mesmo do samba começar. Mas bastaram os primeiros repiques para que a sentença perdesse espaço. Os pés marcavam o tempo, os quadris respondiam, os braços acompanhavam com naturalidade.  Os olhares, antes duros, ficaram suspensos. O ritmo encantou a diretoria do clube e, naquele ano, Dirce foi eleita Rainha do Carnaval.

Nada a impediria de cumprir seu reinado. Nem mesmo o namorado, Antônio, que se colocou contra o título. Primeiro tentou fazê-la desistir com pedidos. Depois, com ultimatos. Disse que terminaria o namoro se ela insistisse naquela ideia de ser Rainha do Carnaval do Olinda. Dirce não discutiu. Apenas respondeu com um seco e vago “você que sabe”. Porque ela sabia que reinados não pedem permissão. Assim, sob a guarda do samba, vestiu-se de coragem e seguiu. Às claras, para fora do quarto.

Viveu aquele ano como quem cumpre um ritual de plenitude. Brilhou nos bailes de todos os clubes de Ponta Grossa, representando o Olinda. Sambou sob luzes e olhares. A saia girava larga, sustentada por anáguas coloridas como um arco-íris que insistia em existir mesmo nos dias cinzentos. Em alguns bailes, via Antônio, de soslaio, observando-a em silêncio, como quem espiava um mundo que já não mais controlava. Ela não se incomodava. Estava inteira demais para caber em dúvida.

No Carnaval seguinte, o samba silenciou um pouco. A rainha do Olinda não se candidatou novamente ao título. Em nome do amor, abriu mão da coroa. Casou-se com Antônio, guardando o ritmo no fundo do baú, com a esperança de algum dia resgatá-lo. 

O casamento foi um ritual de encerramentos. A igreja se encheu de flores arrumadas pelas mesmas Filhas de Maria que, dois anos antes, haviam-na expulsado por ousar assistir ao Carnaval de rua. A festa aconteceu no mesmo salão do Clube Olinda onde, no ano anterior, Dirce fora coroada Rainha. E, ali, entre mesas e olhares cruzados, ela dançou pela última vez, sem saber que se despedia.

Depois, a vida encolheu, e já não havia espaço para a folia. Vieram os filhos, a casa, um novo bairro, os dias que se repetiam. A beleza da juventude foi ficando pelo caminho, levando junto o compasso e o gingado. Olarias tornou-se visita rara. Dirce não teve tempo para sentir saudade. Havia sempre algo a ser feito, alguém a cuidar, uma rotina inteira a sustentar. Ainda assim, havia brechas.

 

O Carnaval de 1959, guardado em outra parte do tempo, voltava sem aviso. Nessas horas, seus olhos se acendiam e o sorriso se abria largo no rosto. O corpo permanecia quieto, mas não indiferente. Já o samba, que ela prometera resgatar um dia, permaneceu no fundo do baú, restrito aos limites da memória, onde nunca deixou de ser rainha.

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Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski

Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo

Narração do podcast: João Agner

Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,

João Fogaça e Vinicius Orza

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