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Praça dos
Bichos

BAIRRO:
Nova Rússia

Em 1956 criava-se na Praça Getúlio Vargas o Jardim Zoológico e Botânico Municipal, responsável por dar o apelido à Praça dos Bichos. Na década de 1980 o zoológico foi desativado e nos anos seguintes ganhou novas estruturas, como o Ginásio de Esportes Estanislau Stanislawczuk e o Centro de Convivência do Idoso, além de mesas para jogos de baralho.

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CRÔNICA

O rugido que ficou

por Érica Busnardo

Houve um tempo em que a cidade tinha um som que não combinava com ela. Não era buzina, nem sino, nem conversa de esquina. Era um rugido. Quem estava por perto da Praça dos Bichos, ali no Nova Rússia, ou mesmo algumas ruas adiante, ouvia. Às vezes, no meio da tarde, quando tudo parecia seguir o ritmo normal de uma cidade do interior, o som atravessava o ar sem pedir licença. Forte, estranho, deslocado. Um leão.

Não é o tipo de coisa que se espera ouvir, numa sala de aula, mas Nelson Silva Junior ouviu. Mais de uma vez. Sentado, tentando acompanhar o que estava no quadro, enquanto o mundo lá fora lembrava, em voz alta, que havia algo fora do comum acontecendo.

Era assim que a presença do leão chegava até eles. Nem sempre visível, nem sempre perto, mas presente. Às vezes bastava o som. O curioso é que a cidade não parecia achar aquilo estranho. Ou talvez achasse, mas aceitava assim mesmo. Como se toda cidade tivesse direito a um pequeno absurdo.

A cidade, naquele tempo, aceitava isso com naturalidade curiosa.  Porque a Praça dos Bichos para os ponta-grossenses e Praça Getúlio Vargas para os documentos não era exatamente uma praça. Era um zoológico disfarçado de praça. Ou talvez o contrário. Quem entrava, vindo pela rua do Colégio Amálio Pinheiro, dava de cara com os macacos. Sempre eles. Agitados, interessados, um pouco atrevidos.

Mais ao lado, vinham os outros bichos. Os que impunham respeito. Leão. Onça. Tigre. Presos em jaulas pequenas demais para corpos daquele tamanho, para a força que não cabia ali dentro. Na época, nem todo mundo sabia dizer o que incomodava. Havia o cheiro forte, o desconforto no ar, algo fora do lugar. Dava dó de ver, dizem. Anos depois, isso ganharia nome: desanimal.

Mas, para uma criança, tudo aquilo ainda era novidade. E novidade tem esse poder de suspender o julgamento. A praça reunia coisas improváveis no mesmo espaço.

Um lago raso com aves, um aquário embutido na parede com peixes coloridos, um osso de baleia exposto como se aquilo fizesse sentido ali. E fazia. Porque a lógica não era o mais importante. Era a experiência.

Nos fins de semana, o lugar enchia. Gente de todo lado, vendedores, casais, crianças, famílias inteiras ocupando o espaço como se ele fosse maior do que realmente era. O barulho se espalhava. Vozes, passos, chamados, risadas.  Por algumas horas, a Praça dos Bichos não era só um ponto da cidade. Era destino.

Com o tempo, as coisas começaram a mudar. Disseram que os animais seriam levados, mas que voltariam depois, com o espaço revitalizado. Havia sempre uma explicação razoável, dessas que organizam a realidade antes de transformá-la. Mas há coisas que, quando vão, não voltam do mesmo jeito. Os animais partiram. Não havia mais o rugido do leão nem o atrevimento dos macacos. E a cidade, sem perceber imediatamente, perdeu um som.

A praça continuou ali. As árvores, os caminhos, o nome, tudo aparentemente no lugar. Mas faltava alguma coisa difícil de apontar. Faltava aquilo que não cabia na estrutura. Porque nomes, às vezes, são teimosos. Praça dos Bichos. E os bichos já não estavam mais lá. Dizem que o leão fugiu antes do fim. Ninguém sabe ao certo E talvez nem precise. Elas funcionam melhor quando permanecem um pouco abertas, meio verdade, meio invenção. Como todo bom causo.

Mas o fato é que, tenha fugido ou não, o leão continua circulando. Não mais pela praça. Mas pelas lembranças. Porque há coisas que não ficam no lugar onde aconteceram. Ficam nas pessoas. E, de algum modo, ainda hoje, quando a tarde desacelera e a cidade parece voltar a um ritmo mais antigo, dá quase para acreditar que, se houver silêncio suficiente, o rugido pode ser ouvido de novo. Não como era antes. Mas como certas memórias insistem em ser: menos som, mais presença.

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Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski

Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo

Narração do podcast: João Agner

Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,

João Fogaça e Vinicius Orza

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