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Calçadão

BAIRRO:
Centro

De rua movimentada de carroções na década de 1930 ao principal centro comercial e social da cidade, este lugar guarda ricas construções arquitetônicas da década de 1950. A rua homenageia o Coronel Cláudio Gonçalves Guimarães, nomeado em 1890 como primeiro interventor de Ponta Grossa. Em 1994 a rua foi transformada em espaço para pedestres.

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CRÔNICA

Lugar de

passagem

por Érica Busnardo

Há lugares que não pedem permanência. Não são destino, nem ponto final. São travessias. O Calçadão da Coronel Cláudio, um dos caminhos mais vivos de Ponta Grossa, é um desses. Todos os dias, ele cumpre sua função. Liga um ponto ao outro, encurta caminhos, conduz passos apressados. Quem passa por ali quase sempre leva mais do que o próprio corpo. Carrega a lista do que falta fazer, a conversa interrompida, a preocupação que insiste em acompanhar o trajeto. 


São quatro quadras que, vistas de cima, parecem pouco. Mas, por elas, passa quase tudo. Gente indo trabalhar, gente voltando pra casa, gente que não sabe bem pra onde está indo. Sacolas, pressa, pensamentos, cansaço, planos. A cidade atravessa ali.

 

O calçadão é passagem. Nunca foi outra coisa. E, justamente por isso, acumula o que escapa ao olhar apressado. Fragmentos de infância, tardes sem compromisso, encontros que não pedem nome, trabalhos que começam e terminam ali mesmo, no meio do caminho.


Rafaela Prestes é uma dessas vidas que passam por ali. O calçadão sempre foi caminho. E talvez por isso tenha permanecido tanto. A memória dela se forma em movimento e atravessa o tempo desse jeito. Há cenas espalhadas, mas algumas voltam, encontram lugar e ganham nitidez. Em uma delas, ainda criança, caminha ao lado da mãe e interrompe o passo por alguns segundos. Diante da Cervejaria Adriática, pelas janelas, fica observando garrafas de cerveja descendo por uma esteira. O movimento contínuo prende seu olhar. Não houve nada extraordinário ali. Ainda assim, ficou.


Na adolescência, o tempo no calçadão se alongou. Virou caminho e também pausa. Percorria com a avó, entrava nas lojas sem pressa, comprava o que dava. Um jeito simples de ocupar o dia, sem perceber que ali se construía memória. Havia uma leveza difícil de explicar hoje. O tempo mais solto, o olhar disponível, a vida acontecendo sem precisar ser registrada nem agendada.


Depois, o calçadão seguiu atravessando a rotina. Era caminho para o Terminal Central, volta do colégio, passagem entre um compromisso e outro. Às vezes, um desvio proposital só para deixar alguém pelo caminho, esticar um pouco mais a conversa, prolongar um encontro que nem tinha sido combinado. Coisas pequenas, quase banais, mas que permanecem.


Anos mais tarde, já adulta, o velho corredor da cidade apareceu de outro jeito. Virou cenário. Cenário para espetáculos e, sem que ela percebesse de imediato, cenário também para uma nova fase da vida adulta. Ela trabalhava no Sesc, quando, certa vez, o Festival de Teatro e Circo trouxe para Ponta Grossa o espetáculo “Vikings e o Reino Saqueado”, da Cia Os Palhaços de Rua de Londrina. O palco seria o Calçadão. Coube a ela alguns detalhes solicitados pela produção da peça, como frutas. Muitas. E lá foi ela atrás das encomendas: melancia, melão e mamão. Carregou, organizou, deixou tudo pronto para a apresentação. Deu trabalho. Era preciso que tudo estivesse no lugar.


E por um tempo, as pessoas que passavam por lá diminuíam o passo, observavam, paravam, formavam rodas. Naquele momento, o calçadão, acostumado a conduzir, por alguns instantes segurou. O espetáculo começou. No desenrolar da peça, a melancia, o melão e o mamão se abriram ao impacto do machado, pedaços se espalharam pelo chão de petit pavê, compondo cenas intensas, próprias do riso e do teatro de rua. As frutas, mais do que alimentos, eram elementos narrativos, parte da construção de uma trama de tons sociais e políticos, em que o exagero e a ruptura também tinham função. Era bonito, vibrante, chamava a atenção de quem passava.


Fim do espetáculo, aplausos, o fluxo reaparecendo e o calçadão retomando o seu ritmo. No espaço que por instantes havia sido palco, restavam os vestígios da cena, fragmentos de uma história recém-contada. O público seguiu seu caminho, Rafaela e o então namorado, hoje marido, permaneceram lado a lado, varrendo, organizando, devolvendo o caminho ao seu curso. Aquele dia foi cansaço. Hoje é memória.


A memória também guarda momentos mais doces, como a apresentação de um espetáculo de dança contemporânea, vindo de Curitiba.  As pessoas paravam no meio do caminho, assistiam, deixavam-se ficar. Por alguns minutos, não havia pressa.


Hoje, Rafaela passa menos pelo calçadão. A vida mudou de ritmo, de rota, de meio. Mas o caminho segue existindo do mesmo jeito: atravessado.


Porque há lugares que não precisam de permanência para fazer parte da vida. Basta passar. E, sem perceber, deixar ali um pouco das próprias histórias, enquanto se leva, para sempre, aquilo que o caminho guardou. O calçadão segue recebendo passos, pressas, histórias. E devolvendo, a quem passa, fragmentos de memória.

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Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski

Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo

Narração do podcast: João Agner

Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,

João Fogaça e Vinicius Orza

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