
Associação
de Moradores
Parque N. S.
das Graças
BAIRRO:
Boa Vista
Consolidada a partir dos Decretos nº 292/1990 e nº 286/1992, que destinaram área pública para sua sede, a associação surgiu da organização dos moradores do bairro Boa Vista. Desde então, funciona como espaço de reuniões, eventos e atividades coletivas, acompanhando o crescimento da região e fortalecendo a participação comunitária.

Cintia
38 anos - estudante
"A primeira vez que entrei na Associação foi aos meus 6 anos de idade, em 1993, mas conheço desde os 4 anos, passando em frente. Esse espaço representa felicidade, pois é um lugar de festas e comemorações. Em 2005 fiz meu aniversário de 18 anos, foi nessa festa que conheci meu esposo, Álvaro Mateus Santana. Foi uma noite especial em comemoração à família e amigos. Era um local bem diferente de como é hoje em dia, era com portões de alambrado alto, bem velho. Nessa época a associação estava bem mal conservada, quase sem luz e com vários vidros quebrados. Logo depois teve a reforma dela."

Betty Mara Rodrigues de Oliveira
46 anos - do lar
"A lembrança mais linda e emocionante que eu vivi na Associação de Moradores foi o tão esperado e sonhado chá de bebê."
Izabel Havriluk
67 anos - do lar
"Fazem 13 anos que moro no Boa Vista. Aqui é bom de morar, gosto dessa cidade. Participo do grupo da terceira idade da Associação."
Jaqueline de Matos
28 anos
"Meu chá de bebê foi na Associação, em 2017."

Bruno Ruter dos Santos
29 anos - técnico de refrigeração
"Há muito tempo que tem a Associação aqui na vila onde eu moro. Para mim, representa a união dos moradores que buscam melhorias para as nossas ruas e para a nossa segurança."

Clique nos nomes e conheça mais histórias sobre este lugar.
Josefa Vogle
Terezinha Arruda
Eugênio Diglus
João Lacerda
Terezinha Batista
Elza Proença
Anezita Antonelli
Ivete Sedorko e Elias Sedorko

CRÔNICA
Onde o tempo faz morada
por Érica Busnardo
Antes das paredes que carregam boas lembranças, do chão gasto de passos repetidos em compasso com a música e da porta que nunca se fecha de verdade, aquilo foi só um pedaço de terra marcado em papel, com decreto, número, assinatura. Coisa de longe, decidida em gabinete por quem talvez nunca tenha atravessado a rua para ver o bairro de perto. Mas o que veio depois não cabe em ato oficial. A Associação de Moradores do Parque Nossa Senhora das Graças foi feita como as coisas importantes costumam ser construídas, com gente.
O espaço fica ali, no Boa Vista, na rua Aguinaldo Guimarães da Cunha. Discreto. Quase sem saber da própria importância. E talvez não saiba, mas sente. Porque nunca está realmente vazio. Mesmo nos dias quietos, alguma coisa acontece: uma memória encostada no canto, uma história atravessando o salão.
A associação reúne senhoras e senhores com a mesma certeza de pertencimento e nunca fica vazia de verdade. Quando não há evento, há lembrança ocupando as cadeiras, ecos de conversa nos cantos, promessas de voltar. O espaço serve para tudo um pouco. Reunião, festa, conversa comprida, decisão séria. Um aniversário que se inventa de última hora, um chá de bebê que chega trazendo futuro, um bazar que mistura passado e presente sobre a mesma mesa.
Mas é na quinta-feira que o espaço ganha outro ritmo. A música começa às 13h30 e, com ela, vêm também as histórias, as risadas, os reencontros, que chegam devagar, alguns apoiados em bengalas, outros de braço dado. Todos com a mesma certeza de estar ali. O baile puxa conversa, que puxa dança, que puxa lembrança. Depois vem o bingo, o refrigerante, o pastel dividido, o riso fácil. Nada ali é individual.
São cerca de 70 pessoas que se encontram quase religiosamente. Senhoras e senhores que, por motivos diferentes, chegam até aquele salão e ficam pela mesma razão: o pertencimento. As quintas viraram tradição, quase um pacto sem palavras. Um acordo coletivo de que, naquele dia, ninguém fica sozinho.
A música começa e, com ela, alguma coisa se rearranja por dentro. Os ombros se endireitam, os olhos brilham com um tipo de juventude que não mora mais no espelho. Dançam. E, ao dançar, parecem negociar com o tempo. É como se dissessem: ainda não. “Ainda temos mais um passo, mais uma volta, mais uma história para contar”.
Quando a tarde começa a se despedir, ninguém vai embora de verdade. Leva nos bolsos o resto da música, nos olhos o brilho que demora a apagar, no corpo, a sensação de tempo bem vivido. Saem mais leves, como quem enganou a solidão por algumas horas. Ou talvez como quem a ensinou a dançar.
E se essa engrenagem funciona há tanto tempo, não é por acaso. Há mãos por trás de cada detalhe. Gente que organiza, limpa, cuida, acolhe. Dona Zita, dona Isabel, dona Lídia, dona Ana e tantos outros que ajudam sem esperar nada em troca. Um esforço compartilhado que mantém mais do que o espaço físico em pé. Sustenta o sentido de estar ali.
A associação de moradores sobrevive por causa de pessoas que se dedicam a mantê-la. E Anezita Conrado Antoneli, a dona Zita, pode provar isso. Aos 82 anos, ela atravessa o salão da associação como quem atravessa a própria vida. Fala do passado com o pé ainda dentro dele. Está ali há tanto tempo que já não se separa mais do espaço. Talvez nem queira. Zita carrega no corpo as marcas do tempo, mas é na memória que sustenta o que não se vê. A história do bairro Boa Vista passa por ela como caminho já conhecido.
Quando chegou, há cerca de cinquenta anos, quase não havia nada. Nem rua, nem movimento. Só um banhado. Terra que cedia sob os pés e água brotando por onde pisava. Não é exagero. É memória que ainda não secou. Veio do sítio por necessidade, por causa da doença de uma filha. Trouxe junto o que pôde, até a própria casa, desmontada e remontada ali, pedaço por pedaço. No começo, pensou em voltar. Mas o tempo, quando encosta, vai ficando. E ela fincou raízes. Sua fraternidade a fazia bater palma de porta em porta. Queria conhecer, saber, aproximar. Descobrir quem era cada rosto novo, cada criança que cruzava seu caminho, ouvir mais sobre cada história contada. Era assim que ia costurando a vila, sem linha aparente.
Quando a associação começou a ganhar forma, ela já estava lá. Acompanhou a construção, viu crescer, ajudou a sustentar, assumiu a liderança. Em nome da entidade, Zita percorria o bairro. Ia atrás do que precisava. Pedia. Insistia. Diziam que era cara de pau. Talvez fosse. Mas era essa insistência que mantinha muita coisa de pé.
Trabalhou como quem cuida do que é seu. Acordava cedo, organizava, resolvia, prestava contas. Já tirou do próprio bolso para não deixar faltar. Mas, quando lembra, não fala desse esforço. Fala das pessoas. Do carinho que ainda recebe. Do reconhecimento silencioso, em forma de abraços, que não precisa de papel.
No entanto, o corpo, um dia, pediu descanso. Ela diminuiu o passo, mas não saiu do caminho. Continuou ali, de outro jeito. Observando, orientando, importando-se. Porque, para ela, a associação de moradores do Parque Nossa Senhora das Graças nunca foi só um endereço. É um tipo de coração que bate fora do peito.
E talvez seja por isso que, quando a música de quinta-feira começa e os passos se repetem em compasso, ainda haja alguma coisa de Zita misturada ali. Não visível, mas presente. Como certas coisas que não vão embora, mesmo quando já poderiam. Zita permanece.


Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski
Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo
Narração do podcast: João Agner
Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,
João Fogaça e Vinicius Orza


