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Bar do
Pelé

DISTRITO:
Guaragi

Fundado em 1971 por Leonardo Matias, conhecido como Pelé, o bar está localizado no distrito de Guaragi e surgiu como pequeno comércio voltado à comunidade local. Ao longo das décadas, funcionou também como posto telefônico, ponto de abastecimento e referência para moradores da região. Mesmo com mudanças estruturais, segue ativo, mantendo seu papel no cotidiano local.

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Fábio de Souza

44 anos - eletricista

 

"Conheci o bar do Pelé nos anos de 1997 ou 1998. Bons momentos de lazer, esporte e interação social com amigos, familiares e outras pessoas que ali conheci. Meu tio Doca gostava de futebol e resolveu montar um time para participar de campeonatos, entre eles a famosa Copa Cidade Viva. Após o jogo, fomos conhecer o famoso Bar do Pelé, onde tomamos um refri e comemos uma deliciosa porção de lambari frito. Bons momentos que marcaram minha vida, com meus primos Paulinho e Nano e com meu querido tio Doca, hoje falecido."

Kaoana Daldegan

26 anos - auxiliar de cozinha

 

"Quando éramos crianças íamos com nossa mãe comer lambari frito e também comprar peixe no Bar do Pelé."

Sabrina Soares Jeremias

25 anos - zeladora

 

"Meu tio me levava para comprar doces e salgadinhos no sábado, após o almoço. Na volta do açougue, passávamos lá para comer peixe frito."

Luiz Fernando Borges

36 anos

 

"Certa vez, nos preparamos para ir pescar em um rio próximo dali, chamado Guaraúna, e paramos para comprar isca para pescar lambari. Aproveitamos para pedir umas dicas para o Pelé. Partimos para pescar, onde ficamos o dia inteiro na beira do rio. Resumindo, no fim da tarde voltamos ao Bar do Pelé para comprar peixe, porque não pegamos nada."

Monalisa Caetano Valentim

32 anos - auxiliar de serviços gerais

 

"Minha família sempre foi cliente e amiga do Pelé, sempre soube tratar todos bem, e até hoje minha família fala bem sobre esse lugar. Um lugar respeitoso, com boa energia, uma família que acolhe bem seus clientes. Esse lugar vai ser exemplo de respeito, educação ao próximo e um bom lugar para se lembrar."

Paulo Cesar Gaspar Teixeira

46 anos - encarregado eletricista

 

"Todas as vezes que nós passávamos por ali, vindo de Inácio Martins ou de Irati, comíamos peixe com uma cerveja gelada ou pinhão cozido e contávamos histórias de caçador."

Diego Rodrigo dos Santos

44 anos - técnico de paisagismo

 

"Eu tinha um tio que morava em Teixeira Soares. A cada mês, nós viajávamos para lá. E daí nós costumávamos dar uma parada no Bar do Pelé para comer um peixinho (lambari) frito. Era muito gostoso, e ficávamos escutando as histórias de pescador dele. Ríamos muito e continuávamos nossa viagem."

Flávia Ap. Santos

33 anos - operadora de caixa

 

"Sempre comprei doce de amendoim lá. É um lugar bem visitado."

Emylly Marcele do Rocio Vaz Túlio

9 anos - estudante

 

"Meu pai conhece o Bar do Pelé desde quando tinha15 anos. Ele conta que esse bar é um ponto turístico clássico e também um bar de carreteiros, porque os carreteiros vinham e paravam lá."

Paula Karoline Dias Ferreira

43 anos - vendedora

 

"Conheci o Bar do Pelé quando ainda era criança, com mais ou menos 4 ou 5 anos, na década de 80. Me remete lembranças com meus avós maternos, sempre quando íamos a Valinhos Guaraúna, fazíamos uma parada. O seu Pelé sempre ficava na porta. Era ponto de encontro e conversas. E, até hoje, é um lugar que não teve mudanças. Um ponto antigo de muitas memórias."

Iraene Fogaça

43 anos - zeladora

 

"Conheci o Bar do Pelé em 1985, quando me mudei pra Guaragi. Ali tive muitas lembranças boas. Lembro que meu pai pegava eu e meu irmão para ir comer peixe frito e doces. Foi muito bom esse tempo."

Denise Pacheco do Nascimento

39 anos - auxiliar de cartório

 

"Conheci esse lugar quando era criança, indo e vindo de Irati. Me traz recordações de momentos com meus falecidos avós paternos. Meu avô sempre pedia para parar o carro ali, para ele comprar biscoito de polvilho e doces para mim."

Lucélia Mattos

41 anos - operadora de caixa

 

"Todo final de semana, eu e meu saudoso pai fazíamos as compras da semana, e ele sempre comprava algo que eu queria: um doce, um sorvete… foi onde ele comprou minha primeira boneca."

Maria Eduarda Weber Soares

28 anos - do lar

 

"Quando morava em outra cidade, toda vez que vínhamos para Ponta Grossa, parávamos no Bar do Pelé para comprar um pacote de pipoteca. Não existia nenhuma viagem em que não parássemos."

Patrícia Batista

40 anos - do lar

 

"Quando ia para a escola, sempre tinha que passar no Bar do Pelé, nem que fosse para comprar uma bala. Ele sempre com um sorriso no rosto, não importava se tinha pouco dinheiro, era sempre bem atendido… Bons tempos de infância que não voltam mais!"

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Ananias Pereira e sua relação com o Bar do Pelé

por Tamires Limurci

O caminho levava até o Bar do Pelé, no Guaragi. Era lá que o torneio de futebol estava marcado. Ananias Pereira lembra de saírem todos juntos, de carro, como quem já estava pronto para marcar. Chegaram no meio da manhã, desceram e entraram no bar para perguntar pelo jogo. 


O Pelé não sabia de nada. Disse que não tinha torneio nenhum ali naquele dia, pensou que foi confusão. Mesmo assim, ninguém voltou para Ponta Grossa. Já estavam no bar, decidiram ficar. Ananias, que na época vendia embalagens, lembrou de um pacote que estava no carro e chamou o Pelé para conferir. Ele gostou e comprou ali mesmo, no balcão, como se aquilo já fizesse parte da viagem. 


A manhã foi passando. Veio cerveja, veio a porção de lambari, aquela que todo mundo conhecia. Foram se acomodando, conversando, olhando o movimento, sem muita pressa de ir embora. O jogo perdido ainda estava na cabeça, mas o bar já tinha tomado conta do tempo. Quando chegou perto do meio-dia, veio o telefonema: o torneio não era ali. 


O jogo estava marcado para Guaramiranga, 80 km de distância dali. Ninguém pensou muito. Pagaram a conta, chamaram o filho do Pelé para completar o time e pegaram a estrada de novo. No caminho, ainda fizeram uma parada. E ali, depois de já terem bebido e comido no bar, decidiram almoçar de verdade.

 

Espeto corrido, mesa cheia, mais conversa. Só depois seguiram para o jogo. Quando chegaram, entraram em campo assim mesmo. Empataram o primeiro. O segundo ficou para mais tarde, já no fim do dia, quando o corpo começava a pesar. Jogaram do mesmo jeito. E depois voltaram. 


Ele conta rindo, lembrando de cada parte como se tudo tivesse acontecido sem muito plano. O torneio aconteceu, mas o dia foi outra coisa. Começou no bar do Pelé, com uma pergunta que não teve resposta, e foi seguindo cerveja, lambari, estrada, almoço, jogo. Tudo meio fora de ordem, mas deu certo. 

68 anos - aposentado

CRÔNICA

O pulso do Guaragi

por Érica Busnardo

Se alguém chegar ao Guaragi, distrito de Ponta Grossa, e perguntar onde fica o bar do seu Leonardo Matias, encontrará silêncio e sobrancelhas franzidas. Mas basta dizer “bar do Pelé” que o rosto de quem ouve se abre num sorriso, o braço se estende sem hesitar e o queixo aponta a direção com segurança. “É ali”. Pelé não é apenas dono de um comércio à beira da Rodovia Plauto Miró Guimarães, que liga Ponta Grossa a Irati. É presença constante nas conversas do distrito, um homem cuja história se confunde com a do próprio lugar. 


Leonardo não nasceu no Guaragi. Chegou em 1949, ainda menino, trazido pelos pais para estudar. Foi na várzea, jogando futebol em campo de terra, que ganhou o apelido em homenagem a Pelé. Diz, com riso no canto da boca, que jogava tão bem quanto o rei do futebol. O nome ficou e nunca mais saiu. 
Aos 17 anos, em 1957, começou a trabalhar no comércio da região. Aprendeu cedo o ritmo do balcão, a paciência com freguês, o valor da confiança. Permaneceu por 14 anos em um boteco a poucos quarteirões dali. Saiu com experiência nas mãos e uma indenização no bolso. Em 1971, abriu o próprio bar. Nascia o Bar do Pelé.


Quando abriu as portas, não quis apagar o passado do prédio. Preservou as antigas portas de madeira, com pinturas desgastadas, manteve a estrutura rústica que parecia ter memória própria. No início, era o único estabelecimento comercial importante do distrito. Além das bebidas, vendia chamadas telefônicas. O aparelho ficava ali dentro e, por 26 anos, Pelé completou ligações para o país inteiro pela rede da Embratel. Metade da vida do Guaragi passou pelo fio, dentro do bar. A outra metade passou pelo balcão.


O distrito fervia com a ferrovia. Era gente chegando, gente partindo, sacas de madeira, mandioca e erva-mate cruzando os trilhos. A economia pulsava. No meio do vai e vem, o bar virou ponto de encontro e ponto estratégico. Políticos sabiam disso. Muitas vezes o espaço se transformava em sala de reunião improvisada. Bastidores da política local atravessaram aquele balcão. Pelé ouviu tramas, ambições e promessas. Viu o poder desfilar diante de si por décadas.  


Durante anos, a rotina do bar começava às 19h e só terminava quando o sol surgia. Havia sinuca, som alto, conversa atravessando a madrugada. O bar respirava movimento. Entre uma partida e outra, entre um copo e outro, formavam-se amizades, acertavam-se negócios, compartilhavam-se lutos e alegrias. Nas prateleiras, além de bebidas, acumulavam-se histórias.


Em 2002, o homem que chegara menino no distrito recebeu o título de Cidadão Honorário de Ponta Grossa. O reconhecimento oficializou algo que o distrito já sabia havia muito tempo: Pelé era parte da paisagem humana do Guaragi. 


Mas nem todas as lembranças são leves. A voz pesa quando ele fala dos assaltos. Numa tarde que parecia comum, homens entraram armados com revólver e escopeta. O metal frio encostado na cabeça, o silêncio denso do medo, a família paralisada. Levaram o dinheiro e desapareceram. Na segunda vez, o susto virou ferida. Houve hospital e o medo ficou. 


O bar seguiu aberto, mas algo mudou. Vieram adaptações, cuidados redobrados. Hoje, a pesada porta de madeira, protegida por gradil de ferro gasto pelo tempo, permanece fechada. O atendimento acontece pela janela lateral, por entre as barras. É dali que ele surge, de chapéu e gentileza intacta. Mudou a forma de entrar, não a razão de estar. 


O movimento é menor, mas o bar continua sendo ponto de encontro. Comentam-se notícias, lavoura, política, vizinhança. As cervejas seguem geladas, as cachaças alinhadas, as conservas guardadas. As balas permanecem no baleiro antigo de vidro grosso, atravessando gerações. Ele garante que vai atender até quando Deus quiser. 


Mas o famoso lambari frito, que durante anos foi marca registrada da casa e não se encontrava igual em lugar nenhum, não é mais servido. O segredo estava no processo inteiro do preparo. Pescado por ele e sua esposa Marli, companheira de 40 anos, o peixe passava pela “molhada”, uma higienização cuidadosa com vinagre. Depois vinha o sal na medida certa, a camada de fubá amarelo e, por fim, a frigideira com óleo bem quente, pra fritar “bem direitinho” até dourar e virar ouro. Simples, mas tratado com respeito. Hoje, ainda há a pesca, sob encomenda. O lambari é entregue cru para ser levado para casa. O prato que virou afeto ficou em outro tempo.  


Mais do que comerciante, ele tornou-se parte da paisagem humana de Guaragi. É difícil atravessar o distrito sem esbarrar no bar do Pelé. Quem não passa pela porta, ao menos passa pela história. O comércio à beira da Rodovia Plauto Miró Guimarães, rodovia que liga Ponta Grossa a Teixeira Soares, Fernandes Pinheiro e Irati, deixou de ser apenas um ponto de venda. Tornou-se referência afetiva. E enquanto houver alguém para apontar e dizer “é ali”, o pulso do lugar continua batendo.

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Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski

Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo

Narração do podcast: João Agner

Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,

João Fogaça e Vinicius Orza

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