
Estádio
Germano Krüger
BAIRRO:
Oficinas
Construído a partir de 1939 por trabalhadores ferroviários da Rede Viária Paraná-Santa Catarina, o local foi inaugurado em 1941 como Estádio de Vila Oficinas. Vinculado ao Operário Ferroviário, acompanhou o crescimento do clube e do bairro ao longo das décadas. Em 2020, teve sua posse definitiva oficializada, consolidando-se como principal espaço esportivo de Ponta Grossa.

CRÔNICA
O Fantasma
da Lambreta
por Érica Busnardo
José Hyczy Fonseca, hoje com 84 anos, foi o famoso “fantasma”, eternizado na garupa da lambreta que, em 1962, estampou os jornais de Ponta Grossa. Diferente daquele fantasma translúcido que mora no imaginário popular, ele vestia preto dos pés à cabeça. No peito, uma taça branca pintada à mão carregava, em letras fortes, o grito: “Viva Operário”. Assim nasceu o fantasma da lambreta.
A famosa foto é o registro de um momento que ainda pulsa no peito do professor Fonseca, como é também conhecido. Era 1962, mas o grito vinha entalado desde o jogo contra o Coritiba, em 1961. O Operário foi derrotado em campo, mas venceu no tribunal, no ano seguinte. O rival havia escalado o atacante paraguaio Agapito Sanches de forma irregular, sem cumprir o tempo de adaptação exigido pelas regras. O Fantasma não se calou. Entrou com ação na antiga CBF, venceu, e o Coxa foi desclassificado. O Operário, enfim, foi declarado campeão da região Sul do Paraná.
Naquela tarde em que subiu na garupa da lambreta, erguendo o braço com orgulho um troféu invisível, em comemoração à vitória, José não era só um torcedor. Era a própria alma do Operário. O Fantasma da Lambreta havia chegado para ficar. Desde então, todas as vezes que o Operário vencia, ele surgia. Não à meia-noite, em corredores gelados e sombrios, mas à luz do dia, pelas movimentadas ruas da cidade, entre buzinas e palmas, mostrando que a paixão pelo Operário podia ser coisa de outro mundo!
As histórias do professor Fonseca não ficaram restritas ao fantasma da lambreta. Elas atravessaram trilhos, cidades, arquibancadas e até delegacias. Como naquela viagem a Irati, quando o Operário foi mal e perdeu para o time da casa. A derrota acendeu a fúria operariana, e o líder da torcida organizada, o famoso Medonho, foi detido. José e outros torcedores, inconformados, decidiram que ele não ficaria para trás. Seguiram até a estação e, sobre os trilhos do trem, em ato de rebeldia e lealdade, impediram a partida do comboio até que Medonho fosse liberado. E conseguiram. Com Medonho a bordo, o trem partiu para Ponta Grossa.
O professor seguia o Operário por onde fosse possível, de ônibus, de carona, de trem. Aonde o time ia, ele ia junto. Não perdia um só jogo, principalmente os fora de casa. Nesses, caprichava ainda mais no visual, colocando um terno branco. Não por superstição, mas pela oportunidade de conhecer garotas e viver algo além do futebol.
Mas não foram essas viagens que lhe trouxeram o grande amor. A mulher da sua vida, dona Marilde, ele conheceu mesmo em Ponta Grossa. Estão juntos até hoje. São 63 anos de história e de torcida lado a lado. Esse amor trouxe junto um sogro torcedor do Guarani, grande rival do Operário. “Mas...era gente boa”, costuma dizer José, sempre com aquela pausa generosa depois do “mas”, como se perdoasse a escolha rival com um sorriso.
O eterno Fantasma da Lambreta gosta de se definir como um dos “últimos moicanos” da velha guarda operariana, dos tempos em que o Germano Krüger tinha apenas uma frágil cerquinha entre gramado e arquibancada, sem ouro, sem prata, sem divisões de elite. A arquibancada era o povo. E o povo era o Operário.
Quando perguntam a ele quando começou essa paixão alvinegra, dá de ombros, como quem não vê sentido na pergunta. “Amores não precisam necessariamente de datas. Só de sentimento.” Mas, como todo longo amor, a relação deu uma estremecida, e uma pausa se fez necessária. José ficou 25 anos sem pisar no Germano Krüger, acompanhando o time apenas pelo radinho de pilha, fiel como sempre, distante como nunca. Ninguém sabe ao certo o motivo desse distanciamento. Nem ele mesmo sabe dizer. Não houve um único fator para o afastamento. Talvez mágoa, talvez cansaço, talvez só o tempo fazendo suas peripécias. Mas, mesmo longe da arquibancada, nunca deixou de torcer. Porque um amor assim, mesmo nos intervalos, ainda que longos, permanece inteiro.
O reencontro veio em 2022, no jogo contra o Grêmio. Desde então, não perde mais nenhuma partida. A paixão pelo Operário permanece intacta, agora sem fantasia e sem lambreta, mas com o mesmo coração acelerado. Hoje, o professor Fonseca já não precisa da roupa preta com a taça pintada à mão. Quem o conhece, reconhece. Quem o viu, não esquece. Ele é o Fantasma da Lambreta, mas agora uma lembrança viva de uma paixão que atravessa décadas, estádios e gerações. E, enquanto houver Operário, haverá também um fantasma pronto para aparecer, nem que seja no fundo da memória, e gritar: viva!


Direção Geral e Arte-Educadora: Rafaela Prestes
Produção e Comunicação: Eduardo Godoy
Assistente de Produção e Edição: Tamires Limurci
Antropóloga: Aila Villela Bolzan
Coordenadora de Educação Patrimonial: Ellen Biora
Coordenadora de Pesquisa Territorial: Marcela Bettega
Historiadora Museóloga: Milena Mayer
Historiador Pesquisador: Eduardo Terleski
Identidade visual: Guto Stresser
Fotografias: Rogério Junior
Ilustração: Alisson Nascimento
Croqui: Rute Yumi
Crônica: Érica Busnardo
Narração do podcast: João Agner
Edição do podcast: Luiz Vinicius Piralinda
Estagiários: Ana Luiza Severo, Gabriel Ribeiro,
João Fogaça e Vinicius Orza


